domingo, 28 de maio de 2017

O Dia do Pai na Alemanha é passado com... os amigos.

O "Dia do Pai" na Alemanha é comemorado de forma diferente do que acontece em Portugal, que comemora em Março e na Alemanha é em Maio. O mais estranho para mim foi ter ter percebido que esta comemoração tem lugar na rua, nos parques principalmente e com os amigos mas sem os pais...

Mais tarde explicaram-me que durante muito tempo não se comemorou o dia do Pai, mas havia o "Dia dos Homens" que se juntavam para beber. Esta comemoração que ainda se mantém, passava por ficar no mesmo sítio ou fazer o percurso pela casa dos amigos angariando cada vez mais homens, acabando todos podres de bêbados num sítio qualquer.

Por isso é muito normal que no "Dia do Pai" na Alemanha se começa a ver logo de manhã, rapazes a puxarem com carrinhos de madeira ou de lona cheios de bebida. E as raparigas? São muito poucas e creio mesmo que as que se juntam a eles acabam por ser as namoradas ou as raparigas que pertencem ao grupo.

Ora o "Dia do Pai" foi na passada quinta feira que coincidiu com um feriado e eis que depois de regressarmos de um almoço num restaurante italiano, resolvemos atravessar parque em direcção à nossa casa. Qual não foi o nosso espanto quando vimos centenas de rapazes juntos a beber no parque, outros a grelhar carne, outros com música e muitos em coma alcoólico... E ainda tão jovens, certamente com os dezoito anos acabados de fazer.

Pois é, os alemães são muito dado a extremos, se por um lado cumprem muito as regras e aí de nós que entremos um minuto a mais depois da loja fechar as portas, por exemplo, por outro lado aproveitam este dia para beber até cair de lado, malhando numa maca de hospital... Ui, que giro...

Depois de ter visto o "Dia do Pai" na Alemanha "in loco", percebi o porquê de tantos carros da Polícia junto aos parques e o porquê de tantas ambulâncias que andaram num virote o dia todo. Pessoal, beber com os amigos é fixe, mas daí até entrar em coma alcoólico... 

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Lema na Alemanha: "Faça você mesmo".

"Respeito por quem faz as coisas sozinho" é um slogan da loja HORNBACH na Alemanha, que traduz muito bem a cultura alemã. Se ao princípio eu achava que os alemães faziam eles próprios as obras em casa porque eram forretas e não gastam um tusto mal gasto (excepto nas férias), agora percebo que eles tem muito prazer em ser eles a fazerem sozinhos as suas próprias obras.

O meu antigo senhorio comprou uma casa familiar e praticamente sozinho, colocou chão de madeira, aplicou mosaicos nas casas de banho, montou móveis da cozinha e pintou tudo. Só quando chegou à parte dos aquecimentos e do isolamento do sótão é que chamou uma empresa porque aí, já estamos a falar de coisas mais complicadas. Ele era engenheiro electrotécnico, não tinha experiência em obras e muitas coisas deixaram muito a desejar principalmente nos acabamentos, mas ele tinha um orgulho enorme em ter sido ele a fazer quase tudo. Também é verdade que a satisfação de ter poupado um dinheirão é mais que muita, mas acho engraçado os alemães meterem-se nestas coisas sem perceberem muito do assunto.

Ontem fui buscar o filhote a. casa de um amigo e os pais mostraram-me orgulhosos o seu novo projeto, estavam a colocar o chão de madeira numa das divisões. Perguntei se eles tinham experiência, eles disseram que não e começaram a rir "Sabe como é, os alemães adoram ser eles fazerem as obras em casa, apesar de não percebermos nada do assunto." Eles são professores.

A cultura do "Faça você mesmo" é tão grande que existem dezenas de lojas conhecidas de material de construção. A maior é o HORNNACH, que deve fazer talvez três lojas do maior AKI em Portugal. Tem uma secção só com plantas e árvores, outra com todo o tipo de aquários, peixes e comida para todos os animais e tudo o que se possa precisar para remodelar ou construir uma casa. O site tem inclusive vídeos a ensinar como fazer uma marquise, como colocar um estrado de madeira no exterior, colocar chão de madeira no interior, montar janelas e mais uma mão cheia de temas alusivos à construção.

E olhando para Portugal, onde não somos nada assim, perguntou-me "Será que somos muito exigentes ou a nossa mão de obra está barata e podemos assim usufruir de um serviço mais perfeito?" A verdade é que na Alemanha, tudo é muito bem pago e talvez por isso a cultura do "Faça você mesmo" começou e ficou e até nós já andamos a fazer nós próprios as nossas pequenas obras!

terça-feira, 23 de maio de 2017

Uma Balada em modo Rap.

"John Maynard" é uma das mais famosas baladas de Theodor Fontane, um escritor alemão muito famoso. Esta balada descreve John Maynard, timoneiro de um navio de passageiros no Lago Erie, que se debate com um fogo no seu navio enquanto faz a viagem entre Detroit e Buffalo (não me perguntem o porquê do nome e destas localidades, se o escritor é alemão...). Perante este drama John Maynard permanece no navio cheio de fumo e fogo até conseguir chegar à costa, conseguindo salvar tudo e todos, exceto a própria vida.

Ora esta balada que fala de drama, sacrifício e morte, constitui um tema obrigatório na 4ª Classe das escolas alemãs e a professora do meu filho, sabendo que baladas dissertadas lentamente não fazem o género dos miúdos de dez anos, foi buscar a versão Rap. Foi ontem, quando pesquisava no Youtube a balada, que ao ouvir a versão Rap, o meu filho disse logo "É essa, Mamã! É essa!"

Ora agora vamos todos os dias ouvir um bocadinho de prosa transformada em Rap, para ver se isto entra melhor na cabeça do puto. É obrigatório saber isto na ponta da língua! Vejam aqui.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Carta de Bicicleta? Obrigatório na Alemanha.

Havia uma reunião da escola marcada para as 19h00. É uma hora ingrata, porque antes é muito cedo para jantar e depois de acabar (lá para as 20h30) já está na hora de deitar a criança que no dia seguinte se levanta às sete da matina. Como o meu homem tem ido às reuniões mais importantes, eu acabei por ir a esta porque não me pareceu muito importante, era qualquer coisa sobre a segurança de andar de bicicleta na estrada. Faltava cinco minutos para as 19h00 quando cheguei à sala e eis que a mesma já estava a abarrotar de pais. Eh pá, se calhar isto é importante. Ok entremos e com fé a ver se percebo tudo o que dizem. Juntei-me a duas mães conhecidas e reparei que um Polícia estava a falar com a professora. 

Então que reunião era esta? Bem, foi uma palestra dada pela Polícia sobre o tema bicicleta. Vimos slides sobre as boas condições que uma bicicleta deve ter, ouvimos sobre as regras mais elementares, a necessidade de preparar os nossos filhos para andar de bicicleta na estrada quando não há ciclovia e mais para o fim as provas que vão ter lugar na escola onde a Polícia irá atribuir ou não a Carta de BicicletaQuê? Carta de Bicicleta? Mas é obrigatório ter carta? Eu não tenho e já andei a passear tanto por aí... Isso é mesmo obrigatório? Bem, parece que sim, mas também me descansaram (as mães com mais experiência) que se eu não tiver, não há problema, porque a Polícia não anda por aí à caça das ciclistas incautos. Resumindo e baralhando, os miúdos vão prestar provas a sério perante a Polícia, com direito a um percurso longo entre duas localidades com ida e volta até à escola (ai que medo). São seis encontros na escola com a Polícia em diferentes dias, onde o primeiro foi a inspecção da bicicleta (a nossa bicicleta levou ouro, mas pudera é nova!) e o último será em Junho com a prova final na estrada. 

Mesmo depois de viver já há uns anitos cá na Alemanha, ainda me surpreendo de vez em quando com estas diferenças culturais abismais entre Portugal e Alemanha. Não vale a pena comparar, são dois países completamente diferentes e que evoluíram de forma muito diferente. Ora bem, carta de bicicleta obrigatória? Vamos a isso, puto!

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Respirar fundo, partida... e toca a correr!

Esta semana recomecei a correr, algo que esperava fazer há algum tempo, mas o tempo estava sempre mau, sempre frio, sempre muito vento, sempre com chuva. Finalmente o tempo começou a melhorar neste cantinho da Alemanha e aproveitei para começar a correr, algo que não fazia há muitos e muitos anos. 

Correr era algo de que gostava muito em criança, cheguei a participar em várias corridas pelo meu clube de bairro, "Os Unidos", e até ganhei umas medalhas e uma pequena taça (a corrida era municipal, por isso...). Foi com algum desgosto que deixei esta actividade, devido à minha bronquite asmática que tão severamente apareceu e me colocou logo no caminho das vacinas e do hospital para receber oxigénio, aquando das minhas crises de "falta de ar". Talvez pelo desgosto em pequena, nunca mais pensei nisso, mas nos últimos anos comecei a ler cada vez mais relatos de pessoas que começaram a correr depois dos quarenta anos, comecei a viver um bocadinho por elas, a ficar contente com as suas prestações na maratona de Lisboa e em muitas outras corridas dentro e fora do país. 

Entusiasmada, comprei um livro de preparação para recomeçar a correr e preparei-me com o equipamento adequado e a motivação certa, mas os dias iam passando e com eles sempre o frio, a chuva, o vento e a minha coragem abrandava. Esta semana, assim que vi o tempo melhor, peguei no meu equipamento e lá fui eu, mais lentamente é verdade, mas também mais convicta. O facto de correr num bosque lindíssimo, cheio de lagos, pássaros, esquilos e coelhos a saltarem de trás de cada arbusto, também ajuda muito à motivação. Da primeira vez achei que morria no caminho, tal não era a falta de preparação física, com muitas paragens pelo meio, mas ficou o gosto por voltar a fazer uma coisa de que gosto e uma enorme sensação de bem estar.

Como é normal, fui melhorando a minha prestação, embora o objectivo não seja participar em corridas, mas sim puxar mais pelo meu corpo antes que fique atrofiado com a falta de actividade. Há dias que correm melhor e outros que são mais penosos, como hoje por exemplo, estava muito cansada e custou-me muito. Outra coisa que aprendi foi a não levar telemóvel, porque sentir a vibração ou receber uma chamada desconcentra-nos completamente e não é por meia hora ou quarenta minutos que morremos sem estarmos ligados à rede. Só me falta preparar música para ir ouvindo enquanto corro, pelo menos assim não penso nas pernas que doem como o caraças!

sábado, 13 de maio de 2017

"Se calhar o senhor não é mau..."

Hoje no estacionamento de um centro comercial, o meu homem esqueceu-se do cartão já pago na máquina. Também já me aconteceu. Talvez com a preocupação de tirar o troco ou com a conversa, porque fomos todos juntos às compras, o cartão acabou por ficar na máquina. Um minuto depois, ele deu-se conta do que se tinha passado e voou para ver se ainda lá estava. Qual quê, já tinha sido tirado por outra pessoa. Ainda vimos em cima da máquina, no chão, gar nix. Também já me aconteceu.

Enquanto o meu homem tentava perceber junto da recepção como proceder nestas situações, eu expliquei ao nosso filho que tinha sido uma pessoa má, um ladrão quem nos tinha feito aquilo.

O meu puto pensou um bocadinho e depois disse "Ou se calhar não. Se calhar ele enganou-se e pensou que o cartão que estava na máquina, era o dele." Apesar dos seus tenros 10 anos, ele tem muita dificuldade em aceitar que há pessoas más no mundo, que são diferentes dele ou dos pais, pessoas que querem fazer mal aos outros, que roubam ou assaltam casas. 

É verdade que o protegemos um bocado e não o deixamos ver as notícias sobre guerras ou coisas violentas e como não vemos televisão às refeições ele não se apercebe de alguns problemas mais graves que grassam pelo mundo. Em abono da verdade, na Alemanha existe menos criminalidade e sentimo-nos mais à vontade, mas não quer dizer que não hajam criminosos. Ou neste caso, "chicos espertos" que acham que já ganharam o dia por poupar meia dúzia de euros...


domingo, 7 de maio de 2017

Jugend-Fahrrad-Turnier. Prova de bicicleta.

Na Alemanha, a bicicleta reina e não há cão nem gato que não tenha e não faça passeios na sua bicicleta, seja para ir trabalhar, ir para a escola, fazer compras ou apenas como lazer. Ver miúdos de três anos a pedalar bicicletas minúsculas (que não existem em Portugal) é uma constante. Talvez por a cultura da bicicleta ser tão forte e assumindo que quando os miúdos entrarem para o liceu vão de bicicleta e estão sujeitos aos perigos das estradas, os alunos das Escolas Primárias têm provas de bicicleta na 3ª e 4ª Classe. 

A prova escrita contém perguntas sobre sinais da estrada, as prioridades nos cruzamentos e o cuidado a ter com os carros que vão virar à direita quando seguimos ao lado deles na estrada principal, por exemplo. A prova prática consiste em andar em linha recta por cima de uma tábua de madeira muito estreita, seguir um caminho com curvas sem derrubar os pinos de madeira, fazer um círculo com a bicicleta e levar na mão uma corrente metálica com um íman do ponto A ao ponto B, prendendo-a no fim num poste de ferro preso no chão (a mais difícil), e por fim seguir um caminho com curvas muito apertadas e travar em segurança antes da meta (parece fácil, mas se travar muito perto, é considerado uma falha).

Ora o meu filho não gostava muito de andar de bicicleta, apesar de adorar todas as bicicletas que já teve e tem e que sempre fez questão de escolher a cor e os apetrechos inerentes. Ele evitava ao máximo andar de bicicleta e só ia se fossemos todos juntos, para que ninguém tivesse a desculpa de ficar cá em casa na ronha. E a pergunta da ordem era sempre "Quando é que vamos para casa?" ou "Já chega, não?". Resultado: no ano passado acabou a chorar no fim da prova, porque tinha tido mais falhas que os colegas de turma que andavam mais vezes de bicicleta.

Assim sendo, este ano resolvi oferecer-me para voluntária e ajudar os miúdos nas provas, pelo menos sempre dava umas palavras de incentivo e acalmava-o se as coisas não estivessem a correr bem. Mas para que não se repetisse o desaire do ano passado, "obriguei-o" a ir treinar comigo e lá fomos andar de bicicleta e acabámos por mera coincidência por nos juntar a um amigo dele. E o que aconteceu? Maravilha das maravilhas, começou a querer imitar o amigo, que é um doce e ensinou-lhe alguns truques, e agora já anda mais depressa do que eu, o que não é muito difícil, ele não tinha apenas vontade. E até fiquei de boca aberta quando ele disse que no dia da prova queria ir de bicicleta, apesar de estar aquela chuvinha miúda chata.

Na prova da escola e observando os miúdos das outras turmas, percebi que há muitos como o meu filho, com falta de prática e dificuldade em manejar a bicicleta. É que os 10 anos são lixados para ter uma bicicleta na Alemanha, ou é muito pequena ou é o tamanho acima (que dará para os próximos anos). No tamanho abaixo, têm que pedalar com mais força e no tamanho acima, o peso da bicicleta ainda é grande para eles e falta-lhes crescer um bocadinho para que se sintam mais à vontade. 

O meu filhote fez uma prestação razoável, muito melhor que o ano passado e não houve desanimo ou tristezas, tudo a correr bem, então. E com isto tudo, aprendi que quando for andar de bicicleta (e o tempo permitir... sem chuva ou frio), peço ao meu filho para chamar um amigo e lá vamos nós. Finalmente ele está a começar a ter prazer em andar de bicicleta e vamos começar a aproveitar os imensos trilhos do fantástico parque perto da nossa casa!