sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O Chip e o Code.

A entrada do nosso filho numa escola nova não foi complicada, até porque os alemães explicam tudo (muito...) exaustivamente  e com muita antecedência, mesmo assim acabámos por ter um problemazinho logístico com o cartão "multibanco" que serve apenas para almoçar no refeitório.

Confesso que a culpa foi minha, mas em abono da verdade não tive coragem ou paciência para ler as dezenas de folhas com informação que me chegaram na altura da inscrição. Algumas delas li na diagonal e percebi o contexto, logo chuta para a frente que atrás vem gente.

Preenchi na altura o formulário para se ter acesso a um Chip que por sua vez iria debitar na nossa conta, sempre que o nosso filho quisesse almoçar no refeitório. Informavam-nos também qual seria o nosso Código para ter acesso ao menu semanal e controlar os gastos do nosso filho na escola, até aqui tudo bem. Não introduzi o código, mas guardei-o na respectiva pasta. E aqui é que foi o erro. Pior, primeiro que descobríssemos todos, eu, a escola e o Departamento da Câmara Municipal que trata dos Chips, foi uma carga de trabalhos.

Na escola reenviavam novamente o formulário e nada de receber o Chip. No refeitório diziam que não sabiam porque é que o nome do nosso filho nem aparecia no computador, tínhamos que aguardar, mas continuámos sem receber o Chip. Ao falar com a Câmara Municipal pelo telefone, é que me apercebi que era necessário introduzir o tal Code para receber o Chip, mas ao fazê-lo o sistema negava-me o acesso, já tinha passado muito tempo e ficou inactivo. Reclamava novamente e diziam-me que talvez houvesse um problema no sistema, para esperar umas horas. Não deu. Resolvi ir directamente ao Departamento da Câmara que trata destes assuntos e deram-me uma folha para preencher (com os mesmos dados que eles já lá tinham, nem havia a necessidade de assinar).  Porque é que não disseram que eu podia fazer isso por email?... Uma hora depois recebi o novo Code, introduzi apenas (sem ser preciso escrever ou dar mais qualquer passo) e um dia depois recebemos o Chip.

Já estava cansada de não conseguir resolver um problema tão simples e que me estava a causar transtorno, porque o puto não podia comer no refeitório. É o que dá ler as coisas em alemão na diagonal!

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

As padarias alemãs com sabor a abelha...

Este Verão tem sido muito invulgar por terras germânicas e temos presenciado mais abelhagem e mosquitagem do que o normal. Mas o que nos surpreendeu foi a atitude de uma das padarias perto da nossa casa, para com as abelhas. Simplesmente não fazem nada. No tecto contámos umas 10 abelhas e em cima dos bolos para aí umas 15 abelhas!!!
Vimos isto num dia e depois no outro, ao terceiro dia já começámos a achar que os alemães encaram isto com normalidade, apesar do ar de "nojo" e de receio que nos piquem. Mas não há uma alminha que tenha uma ideia de fechar os bolos com uma porta de correr ou uma rede mosquiteira improvisada? 
Perante este cenário, até as empregadas têm medo de pôr e tirar bolos! Talvez haja uma colmeia ali por perto na rua, mas é totalmente aflitivo. Contaram-me que é normal isto acontecer noutras padarias e que inclusive uma vez souberam de um rapaz que comeu um bolo e foi picado na língua por uma abelha que estava presa no açúcar do bolo.
Costumamos ir à Padaria ao fim de semana tomar o pequeno almoço (na Alemanha funcionam como pastelarias), mas ultimamente nem nos tem apetecido, tal não é a vontade de entrar num "ninho"de abelhas.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Ir ao dentista na Alemanha é... um outro mundo.

Ir ao dentista na Alemanha é entrar num outro mundo. O nosso filho tem um queixal de leite que não quer sair, mesmo com o dente novo a nascer por baixo e a furar a gengiva de lado. Andamos no dentista com este problema sensivelmente há quase dois meses. Primeiro a dentista quis dar um tempo, disse para ele ir abanando o dente e depois de um mês se ele não saísse, então tinha que ser retirado. Passou um mês, nova consulta apenas para se concluir aquilo que já sabíamos, o dente tinha de ser arrancado. Mas... a dentista não podia fazê-lo, tinha que ir a outro dentista, um cirurgião. A sério? Mas os dentistas não são suposto saberem arrancar dentes também?

Parece que não, que há dentistas que só arranjam os dentes e para arrancar, mesmo dentes de leite, deve ser o cirurgião. Lá fomos marcar consulta no novo dentista que para, surpresa das surpresas, não arrancou o dente... Arrancar dentes ou fazer cirurgia como eles chamam, tem dias específicos... Mais uma consulta para daqui a uma semana. Daqui a pouco, já o novo dente nasceu completamente de lado.

E tive mais um episódio de "by the book" na Alemanha, quando tive que assinar uma autorização para arrancar o dente com anestesia localizada... Aqui levam muito a sério a responsabilização dos médicos pelo que possa correr mal, pelo que assinamos um formulário antes de entrar (quando é a primeira vez) e outro depois de sair (neste caso a autorização). Ainda me perguntaram se queria anestesia geral. Hã?! Anestesia geral? Mas não é só arrancar um dente? Resposta "Alguns pais procuram-nos para anestesia geral para que as crianças nem se apercebam da cirurgia".

O tempo que todos já perdemos nas várias consultas... Em Portugal tinha sido resolvido na hora. Abençoados dentistas portugueses...

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Tradições da escola alemã.

Foi na semana passada que o nosso filho iniciou um novo ciclo na sua vida, entrou para o 5º ano, na tão ansiada "Escola dos Grandes", como ele muitas vezes lhe chamava e começou logo com o pé direito, não só porque entrou na escola que desejava, mas também porque ficou na mesma turma com os melhores amigos, um sonho portanto. 

Pois começo por dizer que, mais uma vez, fiquei deslumbrada com as tradições das escolas alemãs, tão simples, tão significativas para pais e alunos e que são pensadas ao ínfimo pormenor, pese embora que os alemães já tenham muita experiência nestas andanças e saibam tudo de trás para a frente.

Não sabia bem o que esperar no primeiro dia, os pais foram convidados e os alunos iriam ter uma "aula" de apresentação. Não sabia se deveríamos levar logo o material todo para guardar no cacifo, se ele levaria apenas a mochila com um bloco de folhas e estojo de canetas. Optámos pela segunda e mesmo assim, constatei que ele foi dos mais carregados (mas não foi o único, nota importante). A maioria dos miúdos não levava absolutamente nada, afinal era apenas a apresentação à escola, mas sem problemas. Depressa guardámos a mochila no carro e lá fomos nós. 

Quando chegámos fomos então encaminhados para o Auditório onde os novos alunos se sentaram à frente e os pais e restante família se sentaram atrás. À hora prevista, o Director da escola fez um discurso simples, desejando as boas vindas aos novos alunos, apresentando os professores, disponibilizando-se para esclarecer os pais no que fosse preciso. Seguiu-se um momento musical com um grupo a cantar e a tocar. Para finalizar o Director chamou turma a turma, os professores das mesmas, assim como os alunos mais velhos incumbidos de ajudar as turmas durante o ano e depois juntou-se ele próprio para a fotografia oficial. Quando terminaram os flashs dos pais "paparazzi", os professores pediram que os alunos que os seguissem para a sua primeira aula e lá foram eles.

O Director encerrou a apresentação, convidando os pais a comer e beber das iguarias preparadas pelos pais do 6º ano, brincando connosco e dizendo "Aproveitem que para o ano são vocês a preparar as coisas". Para além da comida havia muita informação suplementar sobre as actividades que a escola oferece (sem qualquer pagamento suplementar, nota importante) e pudemos trocar impressões com os outros pais.

Quando os nossos filhos saíram vinham felizes e contentes, com um caderno tipo calendário onde se apontam os trabalhos de casa, muito comum na Alemanha e mais informação para os pais. As primeiras impressões foram boas e claro que os pais também ficaram satisfeitos.

Estas tradições tão simples onde todos colaboram são de facto muito significativas para as crianças que sentem que estão mais crescidas e vão entrar numa nova fase das suas vidinhas. Aconteceu na despedida da Creche onde para além da festa de despedida, é hábito as crianças dormirem lá uma noite (na última semana), houve uma festa na Escola Primária onde se deram os alunos mais velhos deram as boas vindas aos novos alunos e depois a despedida que incluiu a largada de balões e se cantou uma canção de agradecimento à escola e aos professores. Agora foi a festa de boas vindas ao 5º ano. Nunca tive nada disto, e se ao princípio quando vim viver para a Alemanha não lhe dava importância, acabei por passar a dar ao perceber o brilho nos olhinhos das crianças que se sentem tão importantes e felizes com a nova fase das suas vidas. Estou rendida e acreditem, as coisas simples e com entreajuda, são às vezes as mais significativas para pais e alunos.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Vender em segunda mão na Alemanha.

Não sei como anda o mercado da venda em segunda mão em Portugal mas por aqui, os alemães são muito dados a isso. Tenho uma arrecadação cheia de coisas que já não uso, como a maioria das pessoas, pequenos electrodomésticos, móveis, roupa, brinquedos, extras de carros que já não precisamos, estores, material para a neve e por aí fora.

Se em Portugal existe o OXL, na Alemanha temos o eBay Kleinanzeigen, ou seja, um site para vender estas pequenas pérolas que andam a ganhar pó nas nossas arrecadações. Já consegui vender muita coisa e reorganizar melhor o meu espaço de arrumações, apesar de ainda o encher ocasionalmente com mais qualquer coisa que já uso. Mas se por um lado, o mercado de venda em segunda mão é pujante na Alemanha, por outro lado é preciso ter alguma paciência. Eis algumas dicas:

Aquando o registo, não coloque os seus dados pessoais, evite o primeiro nome (ou pode inventar um), nunca diga o apelido ou informe sobre o seu telemóvel. Afinal estamos na internet, numa rede aberta a todos e nem todos têm boas intenções. O email é obrigatório e chega. É importante dizer a cidade onde vive, para que os interessados saibam se é longe ou perto para levantarem os objectos em segunda mão.

Antes de postar os seus anúncios, faça uma pesquisa do que existe actualmente no site do eBay. Para saber que preço deve pedir ou como deve descrever o artigo em causa.

Arranje sempre fotografias boas e de vários ângulos, porque isso pode fazer a diferença na altura de alguém se decidir por aquilo que tem para vender.

Postar à 6ª feira é trigo limpo, farinha Amparo. Não é sempre, mas é quase sempre. Por experiência própria, percebi que não vale a pena postar nos dias de semana de segunda a quinta feira ou ao Domingo. Acontece que as pessoas pesquisam mais a partir de sexta feira à tarde e vão logo ver as novidades. Se tivermos postado na quarta ou na quinta feira, isso já não é novidade.

"Quero muito e vou mesmo buscar". Não se entusiasme com estas frases, muitas vezes recebemos respostas entusiasmadas e depois combinamos o dia e a hora e não aparecem. O truque é combinar no próprio dia ou no dia a seguir. Percebi que quando o pessoal tem tempo para pensar ou para falar com outras pessoas sobre isso, acaba por desistir. Pode acontecer dizerem-lhe que estamos a vender caro, pode achar que afinal não precisa daquilo ou simplesmente no espaço de um ou dois dias pode aparecer outra coisa parecida mais barata.

Tente sempre colocar mais dois ou quatro euros em cima do preço, porque a maioria dos interessados regateia sempre. Nem sempre é possível, principalmente com coisas pequenas, se colocar mais caro, ninguém pega, se colocar mais barato, pode aparecer um único comprador que peça ainda para baixar mais dois ou três euros.

"Envia pelo Correio?". Se puderem evitem, é uma chatice dos diabos e quase não compensa a maçada. Primeiro porque temos de comprar uma caixa formatada, depois porque temos que ter o cuidado de pesar, pois os preços são substancialmente diferentes, se quisermos enviar algo com mais de um kilo. Pode acontecer o peso estar dentro dos parâmetros, mas com peso da caixa que não contámos, acabamos por exceder e temos que pagar mais. Perdi a conta das vezes que me dei ao trabalho de pesar, ver o valor da caixa e do envio, para depois as pessoas acharem muito caro e perderem o interesse. Mais vale dizer que lamentam, mas não enviam pelo correio.

Nota importante: "Não aceitamos retorno e não há garantia." Parece estranho escrever isto num produto usado, mas a verdade é que assim nos salvaguardamos de ver regressar o mono que tínhamos despachado há dois dias, porque afinal a pessoa perdeu o interesse. Lamento, comprou aceitou. Agora se quiser, ponha à venda no eBay. Esta aprendi quando andava a pesquisar os preços de alguns produtos no eBay, provavelmente algumas pessoas já tinham tido uma experiência destas e voltaram a ter em casa o que já tinham vendido!

Outra coisa curiosa que fazemos cá em casa são os Mealheiros da venda em segunda mão. O meu filho já tem quase trezentos euros com o que tenho vendido nos últimos dois anos e meio. Não teria esta noção, se lhe desse logo o dinheiro para gastar. Quando chegar aos trezentos vamos esvaziar e começar de novo. Nós também temos um com o ganho das coisas velhas da arrecadação e esperamos igualar o valor do filho! 

Gosto também de vender no Flowmarkt das escolas, não temos que pagar inscrição e não precisamos de uma mesa para expor as nossas coisas, basta uma toalha de piknick. Acreditem que já vendi muito nestes Flowmarkt escolares, vendemos baratinho, mas vendemos melhor do que no eBay onde é raro pegarem nos jogos de mesa, puzzles ou livros na internet e assim aproveitamos para despachar alguma coisa nestas feiras da escola.

Porque vendemos coisas em segunda mão? Precisamos desesperadamente do dinheiro? Nem por isso, mas se o que não usamos servir para outra pessoa e se pudermos ganhar algum dinheiro com isso e mais espaço na nossa arrecadação, então tanto melhor. Que esse dinheiro sirva para nos desembaraçar-nos do que não queremos e para comprar o que queremos!

domingo, 30 de julho de 2017

Voltar ao ritmo alemão.

As férias terminaram e com elas veio o regresso ao ritmo de vida alemão. Assim que chegámos, encontrámos uma Alemanha debaixo de chuva que assim se manteve por uns dias. Por aqui, o Verão já acabou e começou o "Outono", sim, porque em Agosto na Alemanha, o tempo é muito parecido com o Outono em Portugal apesar de ainda se andar muito bem na rua (quando não chove, está claro).

Já andamos numa lufa lufa com o início das aulas em Agosto do nosso pequenote, sim, aqui as aulas começam em Agosto, o que faz muita confusão mas que é perceptível quando se percebe que de Verão, o Agosto alemão não tem nada. Para a semana começam o trabalho, as aulas, os "terminis" uns atrás dos outros com marcações para tudo e mais alguma coisa, muito ao gosto alemão, muito "by the book".

Para trás ficaram os dias de sol na praia no Algarve, os dias na Serra da Estrela, o apoiar a família e na medida do que foi possível, alguns momentos com amigos de longa data, porque nunca se consegue conciliar tudo para estar com todos. Hoje, último dia de férias, vai servir para nos despedirmos do lazer e da langanice que soube tão bem. Amanhã já vamos acordar em modo alemão, ou seja, muito mais cedo!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

As alemãs também choram...

Ontem foi a festa de encerramento da quarta classe. Houve discursos, entrega de certificados, homenagem às mães voluntárias que ajudam o ano inteiro na escola, houve teatro, música instrumental e muitas cantorias. No fim os miúdos foram para a rua - felizmente tem estado uns dias fantásticos aqui na Alemanha - e depois de uma canção onde agradeceram aos professores por tudo o que aprenderam, à escola onde tanto brincaram e soltaram-se dezenas de balões coloridos no céu.

Depois dos flasches dos pais "paparazzi", dou-me conta que à minha volta, muitas mães choravam baba e ranho. Se calhar ainda não me caiu a ficha ou simplesmente fico feliz por ele ter terminado a Escola Primária e seguir em frente para o liceu, mas não faço disso um momento dramático. Fico muito feliz pelo meu filho e por todos, agradeço a todos os professores que foram sempre incansáveis connosco, agradeço a todos os pais que me ajudaram e a todos os miúdos que o acolheram sem olhar com desdém para o pequeno emigrante que pouco alemão percebia. Sou grata, eternamente grata pela paciência e pela ajuda e procurei retribuir essa gentileza de várias formas, fazendo programas giros e levando os miúdos todos para aqui e para ali ou fazendo lanches fantásticos nas tardes de jogos cá em casa.

Mas curioso é que os alemães são tidos como frios, mas no que toca aos filhos e aos momentos de saída e entrada nas escolas, são uns corações moles, mais do que os portugueses. Choram muito na festa de despedida da Creche, choram muitos entrada para a Escola Primária, choram muito na saída da Escola Primária. E provavelmente em Agosto quando houver a festa de entrada para o Liceu, vão chorar muito outra vez.

Não vou dizer que não é emocionante e que não fico com uma lágrima ao canto do olho porque estamos a despedir-nos de um espaço que foi "nosso" durante quatro anos e não sabemos o que nos espera na nova escola, mas daí a chorar baba e ranho... Ou então, se calhar ainda não me caiu o berlinde.