terça-feira, 25 de abril de 2017

Jette, a criança adulta.

A turma do meu filho na 4ª Classe tem apenas cinco meninas. Uma delas é a Jette (lê-se Ieta), uma menina que sempre me impressionou desde que a conheci na 1ª Classe, porque destoava de todos os outros colegas. A Jette é muito organizada, muito focada nos seus objetivos, não acha graça às brincadeiras infantis dos rapazes e tão pouco às bonequinhas e peluchinhos das raparigas. 

Recordo-me particularmente de um momento na 2ª Classe onde cheguei à sala de aula e enquanto esperava a professora para falar com ela, ia "apreciando" o caos instalado. Eram miúdos em cima da mesa a gritar, brincava-se à apanhada, miúdos estendidos no chão porque sim, porque achavam o máximo esponjar-se no sítio que pisamos todos os dias, enfim... Um caos total. Menos a Jette. Era a única que estava sentada no seu lugar, a ler um livro que tinha trazido de casa. No meio dos aviões de papel que lhe rasavam a cabeça e os peluches que andavam no ar e volta e meia aterravam na sua mesa, a Jetta não se demovia do seu objetivo de ler o seu livro.

Tinham começado a ler em voz alta e a Jette não queria fazer má figura em frente à turma de vândalos onde, infelizmente, tinha tido o azar de calhar. Além do mais, ela queria ser a melhor da turma, para poder concorrer com os melhores das outras turmas e ser considerada a melhor aluna do ano a ler corretamente. Quando isso não acontecia, a Jette chorava. E muito. Ainda hoje chora quando tem um 4 ou um 3 (impensável para aquela pequena cabeça). Ainda imaginei uns pais ferozes, com castigos implacáveis, mas nada disso existe. São pessoas formadas, que ocupam boas posições e acredito que como todos os pais, peçam para ela dar  seu melhor. E ela dá, mas perde. E muito.

Não tem prazer em brincar, pular ou jogar. Segundo vou percebendo, é muito raro envolver-se em brincadeiras com os colegas no exterior, porque acha tudo infantil. Não vai para a casa das outras crianças brincar porque se farta, está pouco tempo na rua porque é um tédio. Só está bem com os adultos, dos quais bebe incansavelmente das suas palavras de experiência acumulada e imagina-se ela própria naquela mundo tão libertador e nada infantil.

A Jette é uma criança adulta, que já nasceu adulta e só pensa em chegar ao momento em que será finalmente adulta. Pena é que apenas quando chegar lá, irá perceber que quando era pequena, não brincou, pulou ou fez avarias e disparates, não se riu à toa, não se sujou na relva com os amigos, fez corridas, brincou à apanhada ou às escondidas ou se lambuzou com gelados que lhe derretiam nas mãos. Mas aí, será tarde de mais.

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